Quando o jogo deixa de ser lazer
Jogar não é, por si só, um problema. A maior parte das pessoas aposta em um campeonato, joga no celular e volta para a vida normal depois. O vício dos jogos começa quando essa volta deixa de acontecer.
O sinal decisivo não é o valor apostado. É a perda de controle sobre quando começar e quando parar. Alguém que aposta cinquenta reais por semana e não consegue interromper está mais perto do transtorno do que alguém que aposta mil e para quando decide.
Em São Paulo, a procura por atendimento acompanhou a popularização das apostas esportivas no celular. O jogo passou a caber no bolso, disponível a qualquer hora, sem testemunha nenhuma.
O que é o vício dos jogos
O que se chama de vício em jogos tem descrição clínica própria. A Organização Mundial da Saúde reconhece dois quadros distintos na CID-11. O transtorno do jogo, ligado a apostas com dinheiro, e o transtorno por uso de jogos eletrônicos. São condições diferentes, com mecanismos parecidos.
Nos dois casos o critério central é o mesmo: o comportamento continua apesar do prejuízo. Dívidas, brigas em casa, faltas no trabalho, noites sem dormir. A pessoa enxerga o dano e ainda assim volta a jogar.
O diagnóstico costuma exigir cerca de doze meses de sintomas, prazo que pode ser encurtado quando o quadro é grave. Ele é feito por médico ou psicólogo, em avaliação presencial, e não por um teste de internet. Vale dizer também que o vício em jogo não é falta de caráter nem preguiça: é um transtorno de comportamento descrito e estudado há décadas.
Como o vício se estabelece
O jogo de aposta funciona com recompensa imprevisível. Você não sabe quando vem o ganho, e é exatamente essa incerteza que fixa o comportamento. Um prêmio garantido cansa; um prêmio possível prende.
Some-se a isso a quase-vitória. Dois números certos de três, o gol no último minuto que derruba a aposta. O cérebro registra esse episódio como progresso, não como perda, e empurra para a tentativa seguinte.
O caminho costuma ter três tempos. Primeiro vem a fase de ganho, com apostas pequenas e algum lucro. Depois a fase de perda, quando a pessoa começa a jogar para recuperar dinheiro. Por último a fase de desespero, com empréstimos, mentiras e valores que já não têm relação com a renda.
É nessa terceira fase que a maioria procura ajuda. Raramente pelo jogo em si, quase sempre por uma dívida que apareceu ou uma mentira que não se sustentou.
Os tipos de vício em jogos
Jogos de azar e apostas
Entram aqui as apostas esportivas, os cassinos online, os jogos de rodadas rápidas, as raspadinhas e o pôquer a dinheiro. O dano é financeiro e chega rápido: cartão estourado, empréstimo com juros altos, dinheiro tirado do orçamento da casa.
A velocidade importa. Um jogo que resolve em segundos permite dezenas de apostas por hora e reduz o intervalo em que a pessoa poderia repensar.
Jogos eletrônicos
Aqui o prejuízo aparece primeiro no tempo, no sono e nos vínculos. Adolescentes e adultos jovens são a maioria dos casos. Quando o jogo tem caixas de recompensa ou itens pagos, os dois quadros se sobrepõem e o gasto também vira problema.
| Aspecto | Jogo como lazer | Jogo como vício |
|---|---|---|
| Duração | Prevista | Perde a hora |
| Valor gasto | Definido antes | Cresce sempre |
| Sigilo | Não | Sim |
| Depois de perder | Encerra | Tenta recuperar |
| Conseguir parar | Sim | Não |
Sinais e sintomas: como identificar
Os sintomas do vício em jogos aparecem mais no comportamento do que no discurso. Quem joga demais raramente admite, inclusive para si mesmo.
- Apostar valores cada vez maiores para sentir a mesma coisa
- Jogar para recuperar o que perdeu, no mesmo dia
- Mentir sobre quanto tempo ou quanto dinheiro usou
- Irritação e inquietação quando fica sem jogar
- Pedir dinheiro emprestado sem explicar o motivo real
- Perder compromissos, prazos ou horas de sono por causa do jogo
Nos jogos eletrônicos os sinais são outros. Em vez da dívida, aparecem a hora de dormir que nunca se cumpre, as refeições feitas na frente da tela, a queda no rendimento escolar ou no trabalho, a irritação desproporcional quando alguém interrompe uma partida e o abandono de atividades que antes davam prazer. Quando há compra de itens ou caixas de recompensa, o gasto também começa a aparecer, muitas vezes no cartão de outra pessoa.
Quatro ou mais desses pontos, mantidos por meses, indicam que vale procurar uma avaliação. Não é um diagnóstico, é um motivo para conversar com um profissional.
Quase ninguém chega ao consultório por causa do jogo. Chega por causa da dívida, da mentira que não se sustenta mais ou da noite em que ficou claro que não daria para parar sozinho.
As causas do jogo patológico
Não existe causa única. O que se observa é uma soma de fatores que se reforçam.
A ansiedade é um dos mais frequentes. Jogar ocupa a atenção por inteiro e, por alguns minutos, desliga a preocupação de fundo. O alívio é real, e é ele que fideliza. Depois a ansiedade volta maior, agora com a dívida junto.
Contam também o histórico familiar de dependências, quadros de impulsividade, episódios depressivos e traumas não elaborados. Isolamento social e disponibilidade constante do aplicativo completam o quadro. Em pessoas com transtorno bipolar ou em uso de certos medicamentos, o jogo compulsivo pode ser sintoma de outra condição, o que exige avaliação médica antes de qualquer outro trabalho.
Como tratar o vício em jogos
O tratamento tem três frentes que funcionam melhor juntas. A frente clínica, com médico ou psicólogo, para diagnóstico e para tratar o que vem associado, como ansiedade e depressão. A frente prática, que inclui autoexclusão nas plataformas, bloqueio de aplicativos e a entrega da gestão do dinheiro a alguém de confiança por um período. E a frente de apoio, com grupos como os Jogadores Anônimos e com a família informada do que está acontecendo.
Nenhuma dessas frentes substitui as outras. Bloquear o aplicativo sem tratar o que empurra para o jogo costuma render algumas semanas de trégua e uma recaída.
Onde entra a hipnoterapia
A hipnoterapia trabalha o gatilho, não a força de vontade. Em estado hipnótico, a atenção fica concentrada e a pessoa consegue observar a sequência que antecede a aposta: a hora do dia, a sensação no corpo, o pensamento que aparece antes de abrir o aplicativo.
A partir daí o trabalho é de substituição. Instalar outra resposta possível naquele momento exato e reduzir a carga emocional que alimenta o impulso. É um processo com sessões regulares, normalmente contadas em meses, com avanços e recuos. Não existe sessão única que resolva um vício em jogo, e quem promete isso está vendendo, não tratando.
A hipnoterapia também não substitui acompanhamento médico nem medicação. Ela se soma. Se você já tomou decisões financeiras que não sabe explicar, ou se o jogo já custou uma relação importante, uma avaliação inicial serve para entender o que está sustentando o comportamento e o que fazer primeiro.
Os primeiros dias sem apostar
Nas primeiras semanas o desconforto aumenta antes de diminuir. Insônia, irritação e uma vontade que aparece em ondas são esperados. Alguns pontos ajudam a atravessar esse período.
- Fazer a autoexclusão em todas as plataformas usadas, no mesmo dia
- Contar para uma pessoa de confiança e mostrar as dívidas reais
- Sair de grupos de palpites e de anúncios de aposta
- Preencher os horários em que costumava jogar com algo combinado com outra pessoa
Recaída não anula o processo. O que importa é o intervalo entre uma e outra, e o que se aprende sobre o gatilho que a antecedeu.